Isaura Reis:A época dos pequenos circos e dos Ciganos passando em Urandi

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Foto:Professora Isaura Reis

Num passado não tão distante iquando a arte circense tinha grande expressão, a alegria da garotada era contagiante quando um circo se instalava nas cidades. Com o advento da televisão e hoje com a internet trazendo o mundo para muita gente num pequeno aparelho smartphone em qualquer lugar, até os grandes circos de companhias como a canadense, de Soleil já não atrai tanto o público como antigamente.
Muitos foram os circos que por aqui passaram repetidas vezes. Assim o fez no final dos anos 40 e inicio dos anos 50 o circo do José Linguiça e sua esposa Maria Silva. Esse casal, fez muita amizade na cidade e deu um dos seus filhos para o médico Dr. Mário e sua esposa dona Iolanda batizarem (Mário de Paula, O Médico nos Sertões da Bahia).
Outro que circulou por grande parte do Nordeste , foi o circo do Zė Bezerra e esteve em Urandi diversas vezes.
Todo e qualquer circo daquele tempo tinha seu palhaço sobre pernas de paus que além de fazer belas apresentações nos espetáculos noturnos e nas matinês, saía pelas ruas da cidade gritando aquela célebre frase :” hoje tem espetaculo? E os meninos atrás dele respondiam em grande coro: Tem sim senhor !” Meninos descalços, sem camisas, suados correndo e juntamente com aquele gigantesco homem sobre aquelas longas pernas , presas aos seus pés, atraindo as pessoas que saíam à porta e janelas de suas casas para verem naquele cortejo, o início do espetáculo da noite. E aquela meninada ganhava o ingresso de entrada. Eram marcados num dos braços com um tipo de carimbo. Alguns deles tomavam banho naquele dia com muito cuidado e outros, nem banho tomavam para não ter aquela marca apagada.Meninas queriam fazer parte do grupo. Os pais não deixavam. Só umas poucas , bem ousadas entravam naquele cortejo. Dinheiro era difícil! Então, ganhar o ingresso tinha enorme valor.
Sempre alguém de Urandi de quando em vez , patrocinava um espetáculo circense. E a garotada se esbaldava, pois no pacote pago, estavam incluídos os pirulitos e a pipoca. Um prefeito e de praxe o Sr. Diógenes Baleeiro, também um vereador, um comerciante abria a mão e fazia essa generosidade. A chegada do Sr. Diógenes nas proximidades do circo atraia a garotada para receber dele um ingresso. Esse mesmo gesto ele sempre repetia na época do cinema em Urandi. Muitos tentavam entrar ao menos já com o espetáculo iniciado, por baixo da lona sem que os vigias dos circos os vissem. Alguns eram castigados pelos pais quando estes descobriam tal travessura.
O circo que mais esteve em Urandi, foi o Elzener, quase um patrimônio da cidade, segundo Fred Dantas, na sua monografia de mestrado em etnomusicologia pela UFBA, em 1994.
A energia elétrica em Urandi, era já deficiente e Catalito se apegava a Valdomiro Ataíde, com quem fez grande amizade, também conhecido como Vadinho, um dos funcionários do município, que cuidava da rede elétrica para dar o devido socorro. E num determinado espetáculo, um colega ginasiano de Valdomiro de nome Jubilino, que havia lhe dado apelido de Pó de Arroz na escola, gritou: ” Pó de Arroz chegou!” Foi o bastante para que o Palhaço Catalito a partir daquele momento incluisse no seu repertório de piadas , inúmeras produções com esse apelido . De tal forma que até hoje poucos conhecem o seu nome de batismo ou de registro. E assim, quando havia queda de energia ou ela apagava de uma vez , o palhaço gritava: ” dá luz pó de arroz”.E Valdomiro gostava ! Ele Não perdia um espectáculo. Tinha entrada franca.
Todas as apresentações do circo Elzener eram atrativas, mas o drama “A Louca do Jardim ” representado pela dona Diva, era o ápice dos espectáculos. Uma peça digna de ser mostrada em palcos teatrais.
A convite de Catalito, complementava os shows em cada espetáculo uma trilha sonora composta de artistas locais: Cabo Martim no cavaquinho, Didi no violão e seu irmão Toinho ( depois apelidado de Cabo) no pandeiro.
Não sei de onde veio um rapaz de porte robusto de nome Antonio José Ferreira, que além de auxiliar na montagem da arena do circo foi incorporado ao elenco dos artistas deste e logo foi apelidado de Pé Branco , porque usava constantemente sapato branco. Foi ele quem pintou a torre da Igreja Matriz , cuja torre construida na década de 50, mantinha sua pintura original, pois não aparecia um pedreiro que se encorajasse para realizar tal atividade. Durante os dias em que Antonio fazia a pintura, as pessoas se aglomeravam nas proximidades da Igreja, para aplaudirem Pé Branco, pela sua coragem e desempenho. Foi mais aplaudido que nas suas apresentações circenses. O jovem Pé Branco acompanhou o circo por algumas cidades e voltou para Urandi onde fixou residência e construiu sua familia se converteu ao evangelho numa denominação pentecostal e fundou anos depois uma igreja da mesma linha e nela se tornou um líder, deixando para um dos filhos a continuação de sua obra em Urandi.
Assim, como José Linguiça e dona Maria deram um dos seus filhos para o médico Dr. Mário e esposa batizarem, Catalito e dona Diva deram um dos seus também para o médico Dr. Dantas e dona Edith. O menino se chamava Elzener. O mesmo nome do circo da família.
Catalito, o dono e também palhaço era carismático. Portanto, foi bem aceito pelo povo daqui e construiu laços de profunda amizade, respeito e carinho com moradores e tinha o respaldo das autoridades da cidade. De maneira que eles não se alojavam em barracas , mas em casas, oferecidas pelos seus proprietários que não lhes cobravam aluguel.
Uma de suas filhas ,a Rosinha, há anos residente em Caculė, cidade onde estiveram muitas vezes nas suas apresentações, como em Urandi e ali se casou , construiu sua familia e abandanou a arte circense. Ela recebeu em Brasília, das mãos da presidente Dilma Roussef, um prêmio, pela arte que exerceu com a familia, de cujos membros, vários continuam na mesma trajetória pelo Brasil afora.
Outros circos por aqui passaram ao longo do tempo. Uns com maior outros com menor estrutura.
Ah! E os circos de touradas! Os criadores de bovinos se orgulhavam quando os donos dos circos buscavam em suas propriedades para os shows seus grandes e bravos animais.
Esteve aqui também um certo Casimiro Coco de Abreu, com um teatro de bonecos que atraia a população e a todos encantavam.
E os ciganos! A cada ano era comum dois ou mais grupos se acamparem por aqui. Nunca no centro da cidade. Sempre em locais mais afastados.Às margens dos rios ( eram perenes, correntes com água transparente).
A meninada e até adultos , curiosos, se aproximavam para observar o modo deles falarem e apreciarem a beleza e os trajes ( hoje loock) de toda aquela ” tribo.” Além do porte dos cavalos e seus arreios que os ciganos exibiam onde chegavam para negociar . E de venderem também os objetos de cobre: jarras, bacias e tachos de todos os tamanhos. Outros grupos vinham nos seus próprios caminhõezinhos.
Os rapazes daqui cortejavam as jovens ciganas lindas, e as moças os rapazes ciganos, mas de acordo com a cultura deles , os relacionamentos só ocorriam com os individuos do grupo . Uma vez por outra corria a notícia que um cigano raptou uma jovem na localidade onde estava acampado.
As ciganas frequentavam a feira livre da cidade , a praça e as principais ruas e oferecia para ler a sorte das pessoas através das mãos, em troca de um valor negociado em moeda corrente. Ou o recebimento era proposto em pegar jóias do cliente.
Rapazes e moças apaixonados por aquelas personalidades ficavam de coração sangrando quando o grupo de cigano partia.
A notícia corria de boca a boca , quando se instalava um acampamento cigano na cidade, ou nos arredores dela. Comentava-se do perigo que a localidade estava sujeita, porque eles não apenas negociavam com os moradores para levarem grande vantagem , mas furtavam cavalos e objetos que lhes interessavam.
Contava-se por aqui que eles só arribavam , isto é só, abandonavam o acapamento e partiam para outros lugares, porque os piolhos se reproduziram de tal forma, que andavam além das barracas onde estavam alojados. Na verdade, naquele tempo , piolho pulga e percevejo eram parasitas muito comuns. E se tratando de grupos numerosos dentro de barracas , sem as mínimas condições higiênicas, certamente a proliferação e ataques dos piolhos nao era uma lenda . Era real.
Circos que passam raramente aqui, já não despertam o mesmo entusiasmo como naquele tempo. Os de touradas. Os que apresentavam atividades com animais : macacos, leões , onças, cobras , elefantes, etc.
Ciganos, talvez nem venham mais a esse pedaço de torrão brasileiro. Se fixaram por aí e no mundo do comércio tocam sua vida.
Ficaram para algumas gerações, guardadas principalmente nas memórias da infância e adolescência essas boas lembranças.

Por:Maria Isaura Reis Costa

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