Inicio Polícia Em duas semanas,mais de 100 pedidos de medidas de proteção de urgência para mulheres são feitos em delegacia digital na Bahia

Em duas semanas,mais de 100 pedidos de medidas de proteção de urgência para mulheres são feitos em delegacia digital na Bahia

Por urandionline

Mulheres reclamam dos serviços prestados nas delegacias físicas. Polícia Civil nega e diz que ‘os servidores são orientados a atender com humanidade e celeridade’.

Duas semanas após o lançamento da delegacia digital na Bahia, a plataforma já registrou mais de 100 solicitações de medidas protetivas de urgência para mulheres, em todo o estado. Os dados foram divulgados pelo coordenador do Serviço de Polícia Interestadual (Polinter) e responsável pela ampliação dos serviços da delegacia digital, delegado Ivo Tourinho, na quarta-feira (2).

A divulgação dos dados ocorreu na reunião convocada pela Secretaria de Políticas para as Mulheres da Bahia (SPM-BA) para apresentação das novas ferramentas da delegacia.

Segundo o delegado, 119 ocorrências são da Lei Maria da Penha, sendo que 101 foram solicitações de medida protetiva de urgência.

As ocorrências foram encaminhadas para a Delegacia de Atendimento à Mulher (Deam) de Brotas (31,5%) e Periperi (5,5), além de Feira de Santana (8,2%), Deam do interior (11%), e outras (43,8%).

Segundo Julia Palmeira, secretária estadual de Política para Mulheres, a delegacia digital é uma conquista.

“A delegacia é uma conquista das mulheres e também da sociedade. Vem a partir de uma grande inciativa e sem dúvida nenhuma, é mais uma forma de solicitação de acesso para as mulheres. A solicitação de medidas protetivas podem ser feitas pela delegacia digital. Isso é uma conquista”, falou.

Denúncia do atendimento presencial

Nas delegacias físicas, mesmo as especializadas no atendimento a mulheres vítimas de violência, muitas vítimas reclamam dos serviços prestados.

Uma mulher que preferiu não se identificar, contou à TV Bahia sobre os transtornos que passou durante atendimento na Delegacia Especial de Atendimento a Mulher (Deam) de Periperi. O primeiro, ocorreu há cinco anos, quando foi ameaçada de morte pelo ex-marido, pai do filho mais velho.

“A agente que me atendeu perguntou o que é que eu estava fazendo lá, com duas crianças. Ela falou de forma muito ríspida e eu me senti muito constrangida porque eu já tinha me deslocado de onde aconteceu o fato até a Deam de Periperi. É uma aflição que você acha que você quem está cometendo o crime. Eu pedi um copo de água e ela disse: quem disse que aqui tem copo? Eu fui para o banheiro chorar e tentar me recompor, colocar meus filhos no carro e voltei para casa”, disse.

No ano passado, ela voltou ao local, após ameças do pai da filha caçula dela. Ela conta que a situação foi parecida.

“A da segunda vez, foi a vez que eu fui com os meninos e não tinha delegado na Deam. Foi um sábado, e encaminharam a gente para o Iguatemi. Quando chegou lá na Central de Flagrantes, o agente, homem, que me atendeu perguntou o que é que eu estava fazendo lá com aquelas duas crianças. Se eu tinha noção do que estava acontecendo, que eu não podia levar aquelas duas crianças ali”, contou.

Ela disse que conseguiu registrar o boletim de ocorrência, mas que foi desestimulada a pedir a medida de proteção.

“Ele registrou o boletim de ocorrência, e disse que não seria necessária a medida protetiva, que eu fosse para casa e que o agressor se comportasse. Que voltasse no dia seguinte e conversássemos como um casal, que tentássemos nos entender”, falou.

No final de junho deste ano, a vítima voltou a procurar atendimento, e passou pela mesma situação.

“O atendimento, realmente, é péssimo, é horrível. Você é julgada no olhar. Dessa vez, quem me atendeu foi um rapaz. Ele perguntou o que eu queria. Eu pedi um copo de água, e ele disse que não tinha copo. Eu estava muito nervosa, tremendo, tremendo. Na hora que fui fazer meu boletim de ocorrência, eu falei as coisas, mas a moça digitou da maneira que ela quis digitar. Eu questionei para ela, disse que estava faltando informação […] e ela disse para mim que não, que estava tudo certo e que deveria ser questionado mais pra frente”, disse.

“Na medida protetiva do dia 30 não foi solicitada. Eu liguei para o Tribunal de Justiça a semana toda, não foi recebida minha medida. Liguei para Deam, a delegacia disse que não sabia porque o tribunal não tinha feito o pedido. Foi ai que eu identifiquei que a Deam havia perdido minha medida protetiva”, completou.

Ela comentou também sobre o sentimento que tem depois de ser questionada por quem deveria fazer a proteção dela.

“Eu tive que fazer um segundo pedido [de medida protetiva] e a delegada me ligou dizendo que a medida tinha sido encaminhada para o tribunal [de Justiça]. Ela falou que seria em 42h, mas levou mais de 20 dias para sair. É muito tempo. Você ir para a delegacia e quando eu, cidadã, chego para ser acolhida e atendida, eu sou destratada, constrangida, questionada. A gente se sente em um buraco. A gente não sabe se a situação pior é a agressão, do agressor que a gente convive, ou se é do agressor que está nos questionando quando a gente busca o amparo”, falou.

Por meio de nota, a Polícia Civil disse que a situação relatada não condiz com o padrão da instituição. A nota também disse que os servidores são orientados a atender com humanidade e celeridade, além de receberem, constantemente, treinamento para o atendimento ao público.

Violência dentro de casa

Os dados do último Mapa de Violência de Gênero, da Secretaria Estadual de Políticas para as Mulheres, mostram que mais da metade dos casos de violência contra a mulher na Bahia acontece dentro de casa.

Durante a pandemia, esses casos aumentaram 40% em todo o Brasil. Na Bahia, o aumento foi de 54%. Uma das vítimas foi dona Maria Bianca, dona de casa

“Convivia com ele já ia fazer nove anos, mas sempre fui agredida. Por ciúmes… fui agredida tanto fisicamente, quanto verbalmente. Eu nunca tive coragem de dar queixa, sempre tive medo, porque ele sempre me ameaçava de morte. Eu sempre tive medo. Sábado, por volta de 19h, onde a gente mora não tem energia… ele tinha começado a discutir comigo cedo, mas sempre tive medo dele. Ele começou a me agredir”, disse dona Maria.

“Me deu tapas no rosto, me chutou. Depois ele pegou a água do macarrão e jogou a água quente em mim. Queimou a minha mão”, completou.

Por causa da situação, ela disse que vai procurar ajuda. “Depois me agrediu com socos e com uma faca. Eu levei quatro pontos. Vi que não estava suportando mais e pedi ajuda. Consegui ajuda e vou denunciar”, concluiu.

Delegacia Digital

Através da delegacia digital, é possível registrar ocorrências de violência contra mulher, contra a criança e o adolescente e também contra o idoso.

Essa plataforma existe desde 2008 e, neste ano, foi ampliada, com a inserção de atendimento para as mulheres vítimas de violências, por exemplo. Outra novidade é que essas mulheres vítimas de violência doméstica também podem pedir medida protetiva através da delegacia.

Aquelas que já têm medida protetiva em vigor, mas precisam da renovação dela, também poderão comunicar essa necessidade através da delegacia digital.

Para registro, a vítima iniciará o processo no site da delegacia digital. Um link também está disponível no portal da SSP. Em seguida, aparecerá uma página com as instruções de uso. Depois, a vítima colocará seus dados pessoais e relatará o caso.

Nos crimes contra a mulher, criança e adolescente e idoso, envolvendo violência física ou sexual, que necessitam de exames periciais, a unidade virtual vai enviar a guia para exame, através do e-mail cadastrado pelo denunciante. Com o documento impresso, a pessoa deve ir até o Departamento de Polícia Técnica (DPT) e realizar o procedimento de corpo de delito.

Depois do registro virtual, a vítima deverá ficar atenta à caixa de e-mail, por onde receberá o Boletim de Ocorrência e, posteriormente, as instruções dos delegados e investigadores responsáveis pela apuração do caso. Mais informações, documentos, fotos e vídeos poderão ser requisitados.

Por:G1

Posts relacionados

Deixe um comentário

Proibido plagiar