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O homem no silêncio de si mesmo

Por urandionline

É claro que o tempo não para e nem retorna. E dá para perceber seu inexorável avanço numa rota que nada me agrada. E olha que percebi isso muito antes de alguém imaginar essa coisa horrenda do Covid19. Lembro-me de ter comentado com meus filhos e amigos diletos de que a população estava se emudecendo, esquecendo das coisas mais sensíveis. É, será que vocês notaram que as pessoas não assobiam mais, especialmente nas ruas? Antigamente, quando ninguém enchia o corpo de tatuagem e nem pendurava argolas no nariz, nas ruas, em seus caminhares calmosos, as pessoas assobiavam. Um assobio aqui, outro acolá – e eis que se formava uma sinfonia cotidiana.

Havia – especialmente entre os jovens – um desafio musical. Perguntava-se, um a outro: “Que música você tem agora na cabeça?” Pois as pessoas tinham, em qualquer momento, música na cabeça. E, sem que o percebam, acho que ainda têm. Eu, por exemplo, estou escrevendo agora essa coluna ouvindo boa música (Roberto Carlos, Fagner, Raul Seixas). A música é parte essencial da vida, do mundo: a brisa canta baixinho, o temporal é o grande tenor ao lado de trovões e raios que estalam. Passarinhos, grilos, cigarras, cantam. E o homem também. Antes, ele cantava livremente. Agora, no silêncio de si mesmo. Em sua angústia, em seu desespero. Um quase “réquiem”.

Pensei estivesse, minha alma, imune a grandes angústias, tantas já as conhecera ao longo da existência. Foi pretensão, excesso de confiança. Mesmo que nada houvesse mudado em minha realidade digamos que ambiental – o mesmo isolamento, as mesmas condições de serenidade – a vida espiritual fora-me atingida. Machucada. O vírus, a dor planetária, o absurdo da situação brasileira, essa mediocridade assustadora – tudo me contaminara. Noites inquietas, sono interrompido e pesado, ansiedade, a incerteza diante do que não compreendemos, a dúvida entre saber dos acontecimentos ou evitá-los, na louca vontade de, evitando-os, acreditar não mais existissem.

Hoje eu acordei feliz para trocar idéias com a minha irmã. Todavia, confesso que em outros dias tenho acordado com a alma pesada, com o sabor da tristeza, a vontade de continuar dormindo para não saber de todo esse ataque virótico, do coronavírus e de Brasília. E só continuo por repetir o verdadeiro cerimonial de ouvir a algazarra dos pássaros no meu café da manhã. O céu inteiramente límpido, uma explosão de flores e de cores nas árvores, a passarinhada voando e garrulando cria impacto reprovando a minha desesperança, a minha tristeza com o que estão tentando fazer com esse nosso lindo país. E aí digo para a minha irmã que ainda não se aposentou: “Vamos continuar o trabalho e mandar tudo o mais para o inferno?”, como na música que alegrou nossa infância. O inferno na verdade são os outros, políticos, mercantilistas da mídia, exploradores de desgraças e exterminadores de esperanças…

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